22.7.11

Que seu fim de semana seja lindo, como os versos de Gibran...

O Homem e a Natureza
                Gibran Kahlil Gibran (
1883 - 1931)

 Ao romper do dia, sentei-me na campina, 
travando conversa com a Natureza, enquanto o Homem ainda descansava sossegadamente nas dobras da sonolência. 
Deitei-me na relva verde e comecei a meditar sobre estas perguntas:
Será a Beleza Verdade? 
Será Verdade a Beleza?
E em meus pensamentos vi-me levado para longe da humanidade. 
Minha imaginação descerrou o véu de matéria que escondia meu íntimo. 
Minha alma expandiu-se e senti-me ligado à Natureza e a seus segredos. 
Meus ouvidos puseram-se atentos à linguagem de suas maravilhas.
Assim que me sentei e me entreguei profundamente à meditação, senti uma brisa perpassando através dos galhos das árvores e percebi um suspiro como o de um órfão perdido.
“Por que te lamentas, brisa amorosa?” perguntei.
E a brisa respondeu: 
“Porque vim da cidade que se escalda sob o calor do sol, e os germes das pragas e contaminações agregaram-se às minhas vestes puras. 
Podes culpar-me por lamentar-me?”
Mirei depois as faces de lágrimas coloridas das flores e ouvi seu terno lamento... E indaguei:
 “Por que chorais, minhas flores maravilhosas?”
Uma delas ergueu a cabeça graciosa e murmurou: 
“Choramos porque o Homem virá e nos arrancará, e nos porá à venda nos mercados da cidade.”
E outra flor acrescentou: 
“À noite, quando estivermos murchas, ele nos atirará no monte de lixo. 
Choramos porque a mão cruel do Homem nos arranca de nossas moradas nativas.”
Ouvi também um riacho lamentando-se como uma viúva que chorasse o filho morto, e o interroguei: 
“Por que choras meu límpido riacho?
E o riacho retrucou: 
“Porque sou compelido a ir à cidade, onde o Homem me despreza e me rejeita pelas bebidas fortes, e faz de mim carregador de seu lixo, polui minha pureza e transforma minha serventia em imundície.”
Escutei, ainda, os pássaros soluçando e os interpelei: 
“Por que chorais meus belos pássaros?”
E um deles voou para perto, pousou na ponta de um ramo e justificou: 
“Daqui a pouco, os filhos de Adão virão a este campo com suas armas destruidoras e desencadearão uma guerra contra nós, como se fôssemos seus inimigos mortais. Agora estamos nos despedindo uns dos outros, pois não sabemos quais de nós escaparão à fúria do Homem. A morte nos segue, aonde quer que vamos.”
Então o sol já se levantava por trás dos picos da montanha e coloria os topos das árvores com auréolas douradas. 
Contemplei tão grande beleza e me perguntei:
“Por que o homem deve destruir o que a Natureza construiu?”


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